Resistência antimicrobiana está associada a 137,9 mil mortes por ano no Brasil, aponta estudo

No mundo, projeção indica 39,1 milhões de mortes diretamente atribuíveis à resistência bacteriana entre 2025 e 2050; uso inadequado de antibióticos e falhas no controle de infecções agravam o problema

05 de novembro, 2026


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São Paulo, 5 de novembro de 2026 – A resistência aos antimicrobianos (RAM) representa uma das principais ameaças à saúde pública mundial. No Brasil, aproximadamente 137,9 mil mortes por ano estão associadas ao problema, das quais 33,2 mil são diretamente atribuídas a infecções por microrganismos resistentes. Os números são apresentados em artigo científico publicado em janeiro de 2026 na revista Frontiers in Public Health, com base em estimativas de estudos internacionais anteriores.

No cenário mundial, as projeções são igualmente preocupantes. Estudo publicado em setembro de 2024 na revista The Lancet estima que a resistência bacteriana poderá ser diretamente responsável por 39,1 milhões de mortes acumuladas entre 2025 e 2050. No mesmo período, outros 169 milhões de óbitos poderão estar associados à resistência bacteriana.

Além das consequências para a saúde humana, animal e ambiental, a RAM ameaça a segurança alimentar e hídrica, a produtividade e o desenvolvimento econômico. Estimativas internacionais apontam que o tratamento de infecções bacterianas resistentes poderá custar até US$ 412 bilhões por ano. As perdas adicionais relacionadas à redução da força de trabalho e da produtividade podem chegar a US$ 443 bilhões anuais.

Segundo o Grupo de Líderes Globais sobre Resistência Antimicrobiana (GLG), caso os investimentos e as medidas de prevenção permaneçam nos níveis atuais, a expectativa de vida global poderá ser reduzida, em média, em 1,8 ano até 2035. Nas Américas, o impacto poderá chegar a 2,3 anos.

A RAM ocorre quando microrganismos, como bactérias, vírus, fungos e parasitas, deixam de responder adequadamente aos medicamentos utilizados no tratamento de infecções. O uso excessivo ou inadequado de antimicrobianos, associado a falhas na prevenção e no controle de infecções, favorece o desenvolvimento e a disseminação da resistência.

“Cada antibiótico tem indicações específicas. O uso sem necessidade, especialmente em infecções virais, além de ineficaz, favorece o surgimento de bactérias resistentes”, explica Claudia Vidal, infectologista e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA).

Efeitos adversos - O uso inadequado de antibióticos pode causar efeitos colaterais e comprometer a recuperação do paciente. Entre os riscos estão reações alérgicas, náuseas, vômitos, diarreia e, dependendo do medicamento, alterações na função dos rins e do fígado. Também podem ocorrer interações com outros remédios e alterações na microbiota intestinal e vaginal, favorecendo infecções secundárias, como a candidíase.

A escolha do medicamento, a dose, o intervalo entre as administrações e a duração do tratamento devem seguir a orientação médica. Quando o antibiótico é utilizado de forma inadequada, o tratamento pode não controlar a infecção e ainda favorecer a seleção de microrganismos resistentes.

A prescrição de antibióticos para infecções virais, como gripes e resfriados, também não traz benefícios ao paciente e contribui para a pressão seletiva que favorece a resistência bacteriana.

OMS faz alerta ao mundo -  A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a resistência antimicrobiana uma das principais ameaças globais à saúde pública. O problema compromete o tratamento de infecções e pode colocar em risco procedimentos médicos que dependem da eficácia dos antibióticos, como cirurgias, transplantes e tratamentos contra o câncer.

Relatório global de vigilância divulgado pela OMS em outubro de 2025 apontou que aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo apresentou resistência aos antibióticos em 2023.

Entre 2018 e 2023, a resistência aumentou em mais de 40% das combinações de bactérias e antibióticos monitoradas, com crescimento médio anual entre 5% e 15%.

O levantamento analisou mais de 23 milhões de casos confirmados em laboratório, provenientes de 104 países. Foram avaliados 22 antibióticos e oito patógenos bacterianos comuns: Acinetobacter spp., Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Neisseria gonorrhoeae, Salmonella spp. não tifoide, Shigella spp., Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae.

A resistência antimicrobiana também preocupa os setores de produção animal e de alimentos. O uso inadequado de antibióticos na criação de animais pode favorecer o surgimento e a disseminação de bactérias resistentes, que circulam entre animais, seres humanos, alimentos e meio ambiente.

Hospitais brasileiros enfrentam desafios no uso de antibióticos - Um levantamento da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), realizado em 2025, identificou falhas no gerenciamento de antibióticos em hospitais brasileiros. A pesquisa avaliou 104 instituições públicas e privadas e revelou que aproximadamente um em cada cinco hospitais não realizava corretamente o ajuste da dosagem desses medicamentos.

O estudo também apontou que 87,7% das unidades utilizavam a prescrição empírica, ou seja, iniciavam o tratamento sem a identificação laboratorial prévia do microrganismo causador da infecção. Essa prática pode ser necessária em situações que exigem tratamento imediato, mas requer reavaliação posterior, conforme os resultados dos exames.

Impacto de uso inadequado de antibióticos - Pacientes infectados por bactérias resistentes podem precisar de tratamentos mais complexos, medicamentos de maior custo e internações prolongadas. Além de aumentar os gastos hospitalares, essas infecções elevam o risco de complicações e morte. A prevenção e o controle de infecções também são fundamentais para a segurança de pacientes submetidos a cirurgias, transplantes e tratamentos oncológicos.

“Para enfrentar o problema, é interessante fortalecer os Programas de Gerenciamento de Antimicrobianos, realizar auditorias periódicas das prescrições, revisar doses e tratamentos, ampliar o acesso a exames microbiológicos e investir na capacitação das equipes”, finaliza dra. Claudia Vidal.

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